domingo, 27 de fevereiro de 2011

Crônica sobre aquecimento global

Boa tarde!! Hoje estamos colocando uma crítica do escritor Antônio Prata, referente ao aquecimento global, para reflexão sobre o tema . Geografia!!!!!


ANTONIO PRATA Que chuva, hein?
Dizer que o tempo é um assunto chato não é correto, uma vez que ele nem sequer
chega a ser um assunto.
UM DOS EFEITOS MAIS NEFASTOS do aquecimento global tem passado despercebido
por cientistas, políticos e jornalistas: é a intensificação do papinho sobre o tempo. Na
era pré-diluviana-ou seja, até uns dois anos atrás-o assunto não segurava mais do
que quatro frases. "Esquentou, né?" "Ô, tá um bafo!" "Mas parece que de tarde
chove. "Tomara!"
Então o elevador chegava ao térreo, o taxista ligava o rádio, você dizia "vou ali, pegar
uma bebida" e cada um voltava para o conforto ou desconforto de seus próprios
pensamentos.
Dizer que o tempo é um assunto chato não é correto, uma vez que ele sequer chega a
ser um assunto. É, na verdade, o antiassunto, quase que uma extensão do aperto de
mãos, cuja finalidade é criar um campo de consenso entre desconhecidos. Afinal, é
bem pouco provável que, durante um toró, você diga "que chuva, hein?", e ouça como
resposta: "não acho, não, tive uma formação diferente da sua e, na minha opinião,
está fazendo um sol de rachar o coco".
O mundo é uma bagunça, o ser humano é imprevisível, ninguém sabe o dia de
amanhã, mas no meio dessa barafunda, uma coisa podemos afirmar, vez ou outra,
sem chance de erro: há água caindo do céu. Sim, há muita água caindo do céu. E,
abrigados sob o guarda-chuva dessa pequena, porém inconteste certeza, acreditamos
estar a salvo dos riscos do dissenso e da aleatoriedade.
Ou melhor, acreditávamos, pois um século queimando carvão e petróleo fez a
temperatura subir, o gelo derreter e a conversa sobre o tempo, assim como as
estações do ano, está completamente descontrolada. Você entra num táxi, diz "que
chuva, hein?", e o que deveria ser apenas uma brisa de interação transforma-se num
dilúvio. "Mais de três horas, só na Radial Leste...", "meu cunhado perdeu um Corolla,
na Vila Madalena...", "saco de lixo passava que nem caiaque...", "nem bombeiro tava
chegando!". Num segundo, você já tá falando do Kassab e do Alckmin, da ira divina e
do fim dos tempos. O que era um papinho à prova de fogo tornou-se material
altamente inflamável.
O tema é sério. Se o aquecimento global é uma morte lenta, cocção em banho Maria,
a discórdia entre os homens pode levar à guerra de todos contra todos e acabar com
a vida na Terra de uma hora pra outra.
Enquanto ecologistas e políticos cuidam da redução nas emissões de gases e outros
fatores que possam reverter o degelo das calotas, eu, como escritor, dedico-me a
tarefa mais urgente: ajudar a humanidade a buscar uma nova conversa inócua, que
permita a neutra interação e impeça o aquecimento das cacholas. Pensei em algo
como "Dois e dois são quatro" ou "A capital do Brasil é Brasília", mas as afirmações,
embora indiscutíveis, me parecem forçadas. Por hora, até acharmos o substituto ao
papinho (anti) climático, acho que devemos conversar só por meio de provérbios.
Quando o silêncio desabar, como uma sombra, sobre você e o taxista, vizinho ou
colega da firma, basta dizer: "antes um pássaro na mão do que dois voando", ao que
ele responderá, afável: "quem tudo quer, nada tem", e os dois sorrirão, prenhes
dessa tranquilidade bovina que toda concórdia traz- pelo menos, até o estrondo do
primeiro trovão.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
antonioprata.folha@uol.com.br
@antonioprata
Blog "Crônica e Outras Milongas"
antonioprata.folha.blog.uol.com.br

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